Jairo colocou a última muda de roupa na mala. Todos os sentimentos possíveis teimavam em entrar e sair do seu coração. Porém, ele estava decidido! Viajaria a qualquer custo! Olhou para o relógio na parede e fechou apressadamente a última de suas duas malas sem ao menos conferir se estava tudo dentro. Estava feliz, mas ao mesmo tempo perdido em seus pensamentos. Seu futuro apontava para um lugar que não conhecia, mas que desejava muito conhecer. Não sabia o que lhe esperava, mas desejava prosseguir em seus intentos. Agarrou suas duas malas, uma em cada mão, com muito custo por causa do peso, e parou por alguns instantes antes de fechar definitivamente o apartamento. Durante uns cinco minutos, e mesmo sabendo que estava atrasado para o seu vôo, não pôde tirar os olhos daquelas paredes. Todos os cantos eram alcançados por seus olhos marejados que lembravam dos belos momentos que viveu entre aquelas paredes. Mas, para sua dor e maior confusão, os pensamentos mais fortes que invadiam sua mente eram os que diziam respeito aos momentos vividos juntamente com seu grande amor.
– Ha... Sophia! – Pensava Jairo, enquanto algumas lágrimas escorriam pelos seus olhos fixos ainda no pequeno quarto – Não deveria deixá-la, mas preciso buscar meu futuro num lugar melhor.
Este era o único pensamento que lhe prendia ainda ao Brasil. Não queria mais ficar aqui. Precisava de uma nova vida, de um novo lugar, de novas paisagens e de melhores oportunidades. Sempre foi incentivado por seus pais a procurar um lugar melhor para viver, pois aprendeu que aqui não chegaria muito longe. Deveria buscar oportunidades que sua família, de baixa renda e pouca instrução, não conseguiu lhe proporcionar. Mas, agora, depois de juntar dinheiro por alguns anos, finalmente chegara a hora. Só não contava em se apaixonar tanto assim. Enquanto trabalhava em sua cidade para pagar o aluguel e juntar algum dinheiro para a realização de seu sonho, conheceu Sophia. Isto não estava nos seus planos, porém, aconteceu! Ele foi se apaixonando cada vez mais e mais e, aos poucos, se entregou completamente a esse amor arrebatador. Tudo isso passava em sua cabeça durante os poucos minutos em que dava adeus ao seu antigo apartamento. Com um balançar de cabeça, tentou como que afastar estes pensamentos. Pegou a chave e trancou a porta apressadamente, pois precisava pegar o avião. Chegando na porta do seu prédio, após descer as escadas, pediu ao porteiro que lhe ajudasse a carregar as malas e enquanto isso chamou um táxi. Acomodaram as bagagens no porta-malas e partiram para o aeroporto. Durante o caminho, toda a sua vida no Brasil lhe passava pela cabeça. Eram momentos felizes, e outros nem tanto. Sua vida agora mudaria, essa era a sua convicção. Estava tudo acertado: o local onde se hospedaria e onde trabalharia temporariamente, e um curso que talvez iniciasse durante o verão, pois também estudaria para aprender a falar o idioma local rapidamente e poder barganhar um bom emprego, que pagasse melhor e onde pudesse progredir. Tudo estava planejado, mas havia algo que lhe faltava: Sophia não estaria ao seu lado!
- Eu disse para ela ir comigo, mas a teimosa não quis! – pensou em voz alta.
O taxista chegou a olhar para trás e perguntar se tinha falado com ele, mas Jairo disse logo que estava falando com seus botões. O motorista aproveitou a oportunidade e tentou puxar alguma conversa, mas Jairo não demorou para despistá-lo, pois queria permanecer só, com seus pensamentos.
- Bem que ela poderia mudar de idéia! – pensou novamente – Será que conseguiria convencê-la? – Mas agora já era tarde! – disse para si mesmo, num tom forte e decidido – Tentei de todas as maneiras convencê-la, mas ela disse que preferia ficar aqui. Toda a sua vida estava aqui e não precisava ir pra outro lugar.
Jairo, ao ser arrebatado por estes pensamentos, sacudiu novamente a cabeça como anteriormente, tentando mudar o rumo dos seus pensamentos e se concentrar novamente em sua viagem. Aos poucos foi ganhando confiança e convencendo a si mesmo de que estava tomando a atitude certa. Finalmente chegaram ao aeroporto. Não contava que chegariam tão cedo, pois o trânsito estava muito calmo, fora do normal para aquele horário. Descarregaram as malas do carro e Jairo partiu para o “check-in” no balcão. Logo após despachar as malas e cumprir com as burocracias, resolveu sentar-se em uma poltrona confortável no saguão do aeroporto, pois fora informado de que seu vôo atrasaria talvez uma hora. Reclamando, pois estava ansioso para partir para sua nova aventura, reclinou sua cadeira e fechou calmamente os olhos. Pensou em seu destino e exclamou com voz satisfeita:
- Adeus Brasil!
- Então você está nos abandonando? – Falou uma voz suave e ao mesmo tempo grave, ao seu lado.
Sem entender bem de quem se tratava, Jairo retornou sua poltrona à posição vertical e olhou bruscamente para o lado.
- Você vai nos deixar? – perguntou novamente a voz.
Jairo identificou um senhor de cabelos grisalhos, alto e bem vestido, sentado ao seu lado. Sinceramente não lembrava de ter visto ninguém na poltrona ao lado enquanto se acomodava. Depois de ajeitar-se na cadeira, olhou para o senhor que lhe questionava e perguntou:
- Quem é o senhor? E por que diz que vou abandoná-los?
- Bem, acho que a pergunta certa não é quem sou eu, mas sim quem é você? – retrucou o velho, olhando fixamente nos olhos de Jairo.
- Ora, sou apenas alguém prestes a embarcar num sonho antigo! Planejo isso a muito tempo e, respondendo sua pergunta, sou um cara feliz por ter conseguido atingir um dos meus objetivos. Vou deixar o Brasil em busca de um lugar melhor!
O velho olhava atentamente para as expressões curiosas de Jairo enquanto falava, as quais demonstravam um misto de ansiedade, medo e alegria. Jairo continuou:
- E... além do mais, por que quer saber?
- Hum, interessante – respondeu o velho – Entendi o que está fazendo!
- Como assim? Entendeu o quê? Eu é que não estou entendendo o senhor. Sinceramente não sei o que deseja comigo. Como entendeu algo se não lhe falei nada?
O velho deu um sorriso largo, direcionado exclusivamente para Jairo, e prosseguiu em sua fala:
- Entendi apenas que você está deixando um sonho em busca de outro! Simplesmente isso!
Jairo olhou com um olhar espantado para o velho – Será que está falando de Sophia – pensou repentinamente – Como pode ele saber algo a respeito disso?
E o velho continuou, com olhar sereno e voz suave:
- Isto apenas me é familiar! Mas esta história já tem muito tempo. Muita coisa já passou em minha vida desde que isso aconteceu. Você certamente não quer saber a respeito!
Jairo, sem nem ao menos entender o porquê, foi tomado por uma curiosidade intensa – O que poderia ter acontecido com o velho que estava prestes a acontecer com ele? Por que dava atenção a um desconhecido, em pleno saguão do aeroporto, enquanto aguardava seu vôo para Londres, rumo a uma nova vida? – Tudo isso lhe vinha à mente, despertando uma curiosidade intensa na história do velho, com quem agora nem se preocupava mais em saber quem era. Não tinha medo ou indiferença, apenas queria conversar e saber do que o estranho estava falando.
- Não! – falou alto – Por favor, me diga o que aconteceu com o senhor, por favor! Você também fez uma viagem como a minha? Conte-me, lhe peço! Por favor! O que aconteceu?
- Realmente está interessado então, como posso ver! – O velho deu uma risada e sorriu com sorriso largo, enquanto acomodava-se melhor na confortável poltrona do aeroporto, destinada a acomodar os viajantes cansados por intermináveis esperas. Em seguida, olhou fixamente para Jairo e iniciou sua história.
- Eu era jovem como você, e certamente tinha muitos sonhos, também como os seus. Não estava preocupado com o que as pessoas pensavam e somente queria me livrar de todos os problemas. Não queria saber de conselhos ou reclamações. Apenas tinha uma meta: viajar para fora do país para buscar melhores condições de vida. Tudo ao meu redor, aqui no Brasil, acontecia exatamente do jeito que eu não desejava. Tinha problemas e mais problemas. Não conseguia pagar as contas e não tinha condições nem ao menos de me divertir nos finais de semana. Simplesmente parecia que este não era o meu lugar!
Jairo deu um pulo da cadeira, fitando o velho com os olhos brilhando e muito interessado. Não conteve-se e falou:
- Nossa! Essa é a minha história! Também penso que este não é o meu lugar. Por isso quero viajar, para encontrar um lugar melhor. Você tinha razão. Sua historia é muito parecida com a minha.
- Calma – falou o velho – ainda não acabei de contar! Posso continuar?
- Sim – respondeu Jairo, aquietando-se na poltrona – é que não pude conter-me. Adoro histórias, ainda mais as que são parecidas com a minha vida.
O velho acompanhou com olhos fixos a empolgação do rapaz. Aguardou até que se aquietasse novamente e prosseguiu:
- Bem, como eu havia falado, este parecida realmente não ser o meu lugar. Queria algo melhor para mim. Meu trabalho não me satisfazia, não tinha certeza de que estava estudando o que realmente gostava e minha família não me entendia. Aborrecia-me facilmente com qualquer situação. E cada vez mais e mais entendia que este realmente não era o meu lugar. A noite, antes de dormir, sonhava com os países de primeiro mundo. Com a cabeça sobre o travesseiro e esticado completamente na cama, sonhava horas e horas com um futuro melhor. Sonhava com um lugar onde as pessoas me entendessem e não me criticassem. Sonhava com um lugar onde eu pudesse estudar as coisas que gostava e onde pudesse trabalhar facilmente, sem problemas com colegas de trabalhos ou patrões. Minha imaginação dava pulos de alegrias ao visualizar tudo isso na minha tela mental. Sem contar as belas paisagens que veria num dos belos países do mundo. Foi então que me decidi! Eu viajaria para bem longe. Estaria livre de tudo e de todos. Foi quando comecei a guardar dinheiro, sem falar do meu plano para ninguém, nem mesmo para os meus familiares. Ninguém desconfiava! Passaram-se dois anos até que eu pudesse juntar recursos suficientes para embarcar neste sonho. Somente contei para minha família, a respeito da minha decisão de viajar para outro país, dois meses antes do embarque. Todos relutaram, mas nada puderem fazer. Falaram que eu faria falta. Pediram para que eu não fosse, pois todos sentiriam saudades. Alertaram que meu lugar era aqui. Mas de nada adiantou. Estava decidido. E então providenciei tudo! Chegado o dia, todos me acompanharam ao aeroporto. A despedida foi dolorosa, para todos nós! Eu nem ao menos pensei que doeria tanto em mim aqueles momentos de caminhada entre minha família e o avião. Enfim, estava acomodado na "máquina que me conduziria até o meu sonho”, que decolou sem ao menos dar tempo de olhar para trás. Quando vi já estava em outro país! Tive dificuldades no início, mas em alguns meses já estava trabalhando e ganhando o suficiente para sobreviver. Aluguei um pequeno quarto numa pensão. Conheci belos lugares e pessoas diferentes. Vivenciei uma cultura interessante! Mas...
- Mas? – interrompeu Jairo – Como assim mas? Isso é o que eu quero? O que aconteceu?
O velho limitou-se a fitá-lo com paciência e prosseguiu com seu relato.
- Mas aconteceu que eu me vi envolvido nos mesmos problemas! E o pior é que, além de tudo isso, ainda sentia imensa saudade de meus familiares e amigos que havia deixado no Brasil. Então comecei a pensar se realmente havia feito a coisa certa! Me desesperei, e facilmente me via chorando pelos cantos do quarto, nas noites solitárias e angustiantes. Lembrava dos meus sonhos antes de dormir, onde podia ver momentos felizes e uma vida diferente, mas isso não aconteceu. Os momentos bons foram os iniciais, mas agora tudo voltava ao normal. Eu estava “caindo na real”. Até que um dia despertei sobressaltado na madrugada. Foi então que descobri. Entendi que tudo não passava de uma ilusão!
- Ilusão? – interrompeu novamente Jairo – O que quer dizer com isso? Não é porque você não se deu bem que outros terão que passar pela mesma situação – disse num tom revoltado.
- Não foi isso que eu quis dizer! Mas deixe-me terminar minha historia, e então finalmente entenderá! O velho arrumou seus óculos que escorregavam pelo nariz e então continuou:
- A partir daquele momento descobri algo de muito interessante. Algo que mudou minha vida! Naquela mesma noite, logo depois que voltei a dormir, tive um sonho. Neste sonho eu via muitas coisas e pessoas ao meu redor. Muitas situações diferentes que vivi e enfrentei ao longo da minha vida. Tudo estava ao meu redor, mas eu as enxergava como se estivessem fora de mim. Mesmo tendo vivenciado estas tristezas e alegrias em minha vida, as via agora como se não fizessem parte do meu ser. Foi então que entendi que nosso sucesso não depende do lugar onde estamos. Nosso triunfo não depende de nada e nem de ninguém, a não ser de nós mesmos! Percebi que eu não precisava mudar de país para ser feliz. Então, nesse momento, vi que realmente se tratava de uma ilusão. Entendi que eu poderia sim, viajar, conhecer novas culturas, aprender e conhecer, mas, não deveria fazer isso para me livrar dos problemas. Não precisava mudar de país, fugindo, ao invés de enfrentar a vida de peito aberto e lutar pelos meus sonhos. Descobri que não devemos buscar um lugar perfeito para realizar estes sonhos, e que estes mesmos sonhos somente podem ser realizados quando realmente nos empenhamos nisso, independentemente do lugar onde nos encontramos. É um erro comum da humanidade procurar um lugar e um tempo certo para encontrar a felicidade. Acabei entendendo, de um modo árduo, que a felicidade não possui relógio. Você simplesmente precisa correr atrás dela e agarrá-la pelo braço para que ela te dê atenção. Você não pode marcar uma hora para vê-la. Percebendo esta verdade que estava o tempo todo diante dos meus olhos, resolvi ficar mais algum tempo, o suficiente para juntar algum dinheiro e voltar para o Brasil. Quando finalmente pude voltar e rever meus amigos, parentes e os belos locais do nosso país, percebi a grandeza deste lugar e, mais ainda, percebi que era feliz antes, e nem ao menos havia me dado conta disso, pois não enxergava devido a minha ilusão de achar que a “felicidade sempre está em outro lugar”. Aprendi, e então passei a viver intensamente. Sempre tive e terei dificuldades, mas elas fazem parte da vida e certamente nos fortalecem muito quando encaradas com espírito de aventura. Progredi na vida, devido aos meus esforços, e hoje tenho uma linda esposa e belos filhos. Estou aqui hoje somente para uma viagem de negócios. E, onde quer que eu vá, levarei a felicidade comigo. Se não conseguir levá-la na mala, não haverá lugar no mundo que me faça feliz.
O velho encerrou seu discurso, enquanto Jairo o fitava admirado, sem ao menos encontrar palavras para expressar o que sentia. Ele havia compreendido a sublime lição! Somente levantou-se, abraçou fortemente o velho, que continuava a sorrir intensamente, e exclamou olhando para a porta do aeroporto:
- Sophia... estou indo, meu amor!
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Anderson Boni Signori